Cheetos Radioativo
por Tálisson Melo
Somos tantas gerações alimentadas com esse radiante resíduo industrial, crocante, esfarelento, ruidoso, com seu odor alastrando por toda parte, seu sódio viciante, o corante alaranjado deixando rastros em nossos dedos, línguas, dentes, cadernos, roupas, brinquedos! Milho sabor queijo parmesão, cheddar, requeijão, mix.. O salgadinho sintetiza uma treta complexa, materializa contradições do capitalismo, de mutações biopolíticas que compomos, estética da saturação e do excesso simbólico, da cultura pop e violências sistêmicas em jogos e lanchinhos. Aqui, o trabalho de Wagner Olino instala uma contaminação alegre e persistente, tendo a nostalgia como armadilha de captura, embaralhando passado e futuro para comentar sobre o presente de um ponto de vista millennial — ou da infância vivida em colapso!
Com Cheetos Radioativo, vemos uma exposição-instalação dos assemblages de brinquedos, bandeiras alteradas, emojis e personagens que Wagner vem criando com a tônica de um acumulador que dispões sua coleção em rearranjos para comentar sobre o mundo em que vivemos. Uma espécie de iconoclastia interna da cultura pop, em que os ícones são abraçados, devorados e vomitados como ruína fluorescente do ambiente tóxico no qual parecemos pessoas contaminadas por uma felicidade cruel. Com a trilha sonora gameficante elaborada pelo Ricardo Pereira, o ambiente nos captura pela nostalgia de uma infância pura e colorida, cheia de estímulos e magia, mas também como laboratório onde consumo, violência lúdica e pedagogias emocionais foram nos treinando (domesticando?!). O humor, o meme e a ironia acabam parecendo mecanismos de sobrevivência de uma geração: ao mesmo tempo proteção e anestesia diante do conflito e da instabilidade, do medo social e do fantástico cotidiano.
Se aqui entramos em um jogo, a promessa de progresso está suspensa em prol de um loop contínuo e de recombinações inesgotáveis. O conforto imediato gerado pela nostalgia logo evidencia as complicações de uma forma de treinamento afetivo ao qual nos submetemos brincando e vendo TV, agora scrolling memes. Como observa Wendy Brown, o neoliberalismo forma sujeitos antes mesmo de formar cidadãos; e, na exposição, a infância aparece como escola eficiente de padronização das emoções convertidas em reações rápidas. As carinhas felizes, tristes, assustadas, fascinadas, decepcionadas, indignadas, todas se misturam como paisagem da precariedade geracional, dentro de um espectro de ansiedade difusa e otimismo cruel.
Nesse laboratório ou armadilha da nostalgia, perambulamos o que parece ser o gabinete de curiosidades de um arqueólogo do ontem-agora, e vamos encontrando pedaços ostensivos do que Jussi Parikka tem descrito como antropobsceno: o cotidiano mediado por materiais tóxicos, plásticos e resíduos industriais que estruturam tanto o planeta quanto a subjetividade. Sob a forma de um parque infantil permanente, duty free de imagens de desejos onde identidades nacionais, memes políticos e fantasias heroicas circulam como mercadorias emocionais, Wagner escracha com a maneira como fomos treinados para andar na corda bamba sendo o palhaço do circo e a audiência de uma só vez, equilibrando pratos, sonhos, ilusões e medos.
